quinta-feira, 17 de janeiro de 2013
quarta-feira, 16 de janeiro de 2013
Um cenário inquietante...
E
já que era do cenário político atual que eu vinha falando no meu último post,
nada melhor do que seguir a linha e falar dos últimos acontecimentos da
política brasileira, que em meio a invasão do Mali, do desespero da imprensa na
tentativa de derrubar Chávez, acabaram ficando um pouco de lado. Entretanto,
acho que alguns outros acontecimentos recentes são também merecedores de atenção, pois acho que prometem dar uma movimentada no marasmo que vinham sendo as eleições de 2006 pra cá.
A
criação de três novos partidos em marcha o Partido Solidariedade, que tem como
principal articulador a encarnação do que se conhece como “pelego”, o
sindicalista Paulinho da Força, atualmente no PDT, que em São Paulo vive a
reboque da política neoliberal dos tucanos (http://migre.me/cPCDh - matéria do Estadão) e a fundação do
“movimento” Movimento Social Nova Política pela ex-ministra Marina Silva (http://migre.me/cPCGK - matéria do Estadão), além do enigmático
PEN, Partido Ecológico Nacional.
A velha “nova” forma de se fazer política
Marina
Silva começou ao lado de Chico Mendes, como uma militante ecologista e de
esquerda, foi, seguramente a melhor ministra do meio ambiente que tivemos até
hoje.
Entretanto,
quando a via em campanha em 2010 não conseguia entender qual sua “profunda
divergência” com o projeto lulista, que a levou a romper com o PT, muito menos
com o neoliberal de Serra. Em suma, Marina estava à esquerda e à direita de
Serra e Dilma, assim como estava acima e abaixo dos dois. Vazio, como seu
discurso. Seu projeto eco-capitalista agregou muita gente que pensou ser ela
uma opção de esquerda, quando na verdade sua base era de tucanos envergonhados, que viram nela alguém que poderia ameaçar a eleição de Dilma num eventual segundo turno. Não foi, portanto, uma "onda verde".
De
forma muito oportunista, Marina aderiu ao discurso pós-moderno de fácil
digestão dos que “não estão nem à
esquerda, nem à direita, mas à frente”, o que evidentemente é desonestidade
intelectual, e penso não ser necessário me delongar sobre a existência da
direita e da esquerda.
É
com esse intuito que ela procurou setores do PSOL, sobretudo a “socialista”
mais conservadora que já se teve notícia, Heloísa Helena, do PT, do PDT, do
PSDB e até do DEM. Um verdadeiro Frankstein partidário, o que para um país
acostumado àquilo que Gramsci chamava de “pequena política”, em termos do povão
a politicagem, não é tão estranho.
E
continuando com o discurso fofinho, a recusa da forma “partido”, aproveitada de
forma oportunista na nomenclatura escolhida, assim como uma enigmática “Nova Política”,
busca angariar os votos da classe média escandalizada com o suposto “grau de
corrupção nunca antes visto nesse país, meu Deus”.
Afinal,
quem vem com o discurso Soninha, que é bem a cara do PPS, do “pode ser
diferente”, mas busca os mesmos setores de sempre, quem se recusa a ver que a
política se faz sob os movimentos da luta de classes, ora velada, ora aberta,
como diziam Marx e Engels no Manifesto Comunista, só pode acabar na
velha “nova forma” de se fazer política, que na prática se traveste com um
discurso pseudo-progressista, para
aplicar as mesmas políticas neoliberais, de direita, sem compromisso com os
mais necessitados, mas mesmo assim, conquistando setores que poderiam estar com
a esquerda.
Solidariedade entre o capital e o trabalho?
O
PDT paulista foi a “vanguarda” no abandono das bandeiras trabalhistas. Sob o
comando de Paulinho da Força, mostrou-se como o peleguismo do século XXI, com
um discurso populista, aliado às políticas neoliberais do PSDB no estado que
são tão nocivas aos trabalhadores.
As
condições históricas em que se forma a socialdemocracia brasileira o levaram a
seguir uma trilha completamente distinta da socialdemocracia clássica, pois já
nasce sem inserção no meio sindical. Penso que é esse o sentido da articulação
da fundação do Partido Solidariedade, que vem sendo articulado por Paulinho da
Força, agradando ao PSDB, que percebeu que o DEM é um cadáver em estado de
putrefação e o PPS é tão inexpressivo quanto o time do Bangu.
Além
de agradar o PSDB e seus caciques, também agrada ao mais novo PMDB da política nacional, o PSD
de Kassab, tão ou mais fisiológico.
Por
que essa fundação seria importante? Ela seria capaz de dar uma base sindical
para a direita, dificultando ainda mais as condições de luta para a classe
trabalhadora em seu projeto histórico. E isso é uma questão a se pensar...
Uma legenda para o fundamentalismo religioso
O
PEN, Partido Ecológico Nacional, se constitui no sentido de ser um pólo
agregador do fundamentalismo religioso, sobretudo o evangélico, que possui
grande influência no Congresso Nacional, mas está disperso em vários partidos
(PR, PRB etc).
Resta saber
se estamos assistindo ao nascimento de uma legenda puramente eleitoreira, que
será uma espécie de “partido parlamentar”, como o PMDB, e organizará o lobby evangélico, fundamentalista na
Câmara e no Senado, ou se estarão começando a construção de um projeto para o
qual ainda não têm força, eleger um candidato próprio para um cargo majoritário. (Recomendo a leitura http://www.jornalpequeno.com.br/2012/9/15/padres-bispos-e-pastores-ainda-influenciam-no-voto-diz-sociologo-219406.htm).
Considero,
porém, que há algo mais perigoso em tudo isso. Concordo com a análise do
filósofo Vladimir Safatle. Aqueles conservadores que apoiaram Lula em 2002
ganharam vida própria, autonomia. E agora, aquele discurso “temos que votar no
PT, porque senão os direitos sociais serão ameaçados”, começa a ficar um pouco
mais difícil, pois essa direita incorporou a seu programa a agenda de
erradicação da pobreza, e aqui lembrando André Singer, podendo incorporar ao
seu projeto político o fator subproletariado, que é um peso quase que decisivo
para definir os rumos da política no país.
segunda-feira, 14 de janeiro de 2013
“Os sentidos do lulismo”: Uma leitura obrigatória para a esquerda brasileira
Qual
o rosto da classe trabalhadora brasileira?
“O lulismo existe sob o signo da contradição.
Conservação e mudança, reprodução e superação, decepção e esperança num mesmo
movimento. É o caráter ambíguo de um movimento que torna difícil a sua
interpretação.” Assim o grande sociólogo André Singer começa seu último livro, “Os
sentidos do lulismo – reforma gradual e pacto conservador”.
De fato a análise de um fenômeno
absolutamente sui generis, e
inteiramente novo não é uma tarefa fácil, mas, com muita elaboração teórica e
análise minuciosa estatística André Singer consegue fazer com que saibamos qual
é o chão em que estamos pisando no cenário político atual.
André Singer identifica que a maior
parcela da classe trabalhadora brasileira se encontram tão precarizadas que
vivem em condições que lhe dão um status
abaixo do proletariado, isto é, o subproletariado, historicamente conservador,
contrário às greves – conforme estatísticas mostradas, eleitoralmente ligado à
ARENA, ao PDS, ao PFL, enfim, ao coronelismo, sendo a classe que em 1989 deu a
vitória a Collor, isto é, à direita. O proletariado e o subproletariado nunca
jogaram no mesmo time.
Diferente do proletariado, o
subproletariado não tem um projeto histórico. Quer sair da pobreza, mas também
quer “manutenção da ordem” (reforma gradual e pacto conservador – aqui entendemos
que o subtítulo não é aleatório).
Após um elaborado e muito interessante
debate teórico, defende a tese de que o que houve no Brasil foi um realinhamento
eleitoral, isto é, o projeto lulista foi capaz de fazer com que a “nossa questão
setentrional” (paráfrase de Gramsci e a questão Meridional) fosse superada,
isto é, o subproletariado rompeu ideologicamente com o coronelismo.
O lulismo, então, entra na cena
política enquanto tal a partir das eleições de 2006, quando, beneficiada pelas
políticas sociais que – dentro dos limites do capitalismo, reduziram a pobreza
(mas nem tanto a desigualdade) e com a expansão de crédito, essa parcela
decisiva da classe trabalhadora opta pelo lulismo, ao passo que a classe média,
principalmente pela questão do mensalão, passa ao campo mais à direita
política, do PSDB e DEM.
A polarização, porém, deixa de ser
entre esquerda e direita, para se tornar entre ricos e pobres.
Duas almas
O processo de transformismo do PT também é
trabalhado por Singer, afinal de contas sem o PT Lula não seria Lula, e o PT
não seria PT sem Lula.
O PT não adere de imediato ao
lulismo.
A primeira alma do PT, o “espírito
do Sion”, é o daquele partido que foi fundado no Colégio Sion, com corte
claramente socialista, visando uma ruptura radical, fazendo a crítica do
populismo, do sindicalismo de resultados e da dificuldade teórica da esquerda “tradicional”,
por assim dizer, embora o termo seja péssimo, em interpretar o Brasil.
A segunda alma, a do “espírito do
Anhembi” – referência à apresentação da “carta aos brasileiros”, endereçada ao
grande capital em 2002, com o intuito de acalmar o grande capital, amedrontado
com a hipótese de Lula ganhar as eleições, tendo sido dado o recado de que “o radicalismo
petista tinha sido, no mínimo, suspenso”, em termos próprios, diferentemente do
caso da social-democracia alemã, cujo confronto entre as alas da direita e da
esquerda do Partido foi lento e arrastado.
Entretanto, essas “duas almas”,
convivem dentro do partido, não sendo exclusivas entre si.
É interessante quando Singer usa uma
tabela que demonstra como até 2002 os votos no PT entre as classes média e alta
é concentrado, ao passo de que havia um decréscimo considerável nas classes
baixas e como isso se altera a partir das eleições de 2006.
Uma agenda que vai longe...
A grande questão política que Singer
coloca é a de que o grande desafio brasileiro é a redução da pobreza. Neste
ponto, se a oposição neoliberal quiser voltar a governar terá de se adaptar a
essa agenda, cujo cerne são os programas de transferência de renda e expansão
do crédito.
E de fato, o “macaco velho” José
Serra (PSDB – SP) percebeu isso nas eleições de 2010, ao contrário de Alckmin
em 2006, e prometeu não só manter o Bolsa Família (o principal programa de
transferência de renda), como também prometeu um incremento, um “13º”, o que
pareceu ao eleitorado (e aqui digo por mim) pura demagogia.
Se por um lado a pobreza monetária
cai rapidamente (voltando ao que éramos no começo da década de 1960), por outro
lado a desigualdade se cai é quase que a um valor irrisório. Lula soube como poucos
agradar ao grande capital, principalmente com a questão cambial e a questão dos
juros (no fim das contas, o homem da direita escolhido para ser o vice de Lula,
José de Alencar, se pôs à sua esquerda, pedindo a redução dos juros).
Reformismo fraco?
Entretanto, há mudanças. Há – e isso
é muito importante, uma reconfiguração em curso da classe trabalhadora. O
subproletariado está se incorporando ao mercado de trabalho, há, segundo outros
especialistas, e Singer considera tal interpretação, a criação de um “novo
proletariado”. Resta saber se o “antigo proletariado” será suficientemente
forte para incorporar a outra fracção ao seu projeto histórico. A futurologia
dos analistas citados pensa que não.
A dependência das commodities e a preferência do modelo
lulista pelo agronegócio, da maneira como vem sendo praticado, ao invés da
reforma agrária, causam repugnância na esquerda. O “reformismo forte” (que era
o do PT) fracassou enquanto atualidade histórica no Brasil, mas não
completamente, pois deu à Constituição de 1988 seu corte progressista, embora
ela não seja cumprida.
“Se o reformismo fraco é lento
quando observado desde o ângulo da totalidade, talvez pareça rápido quando
visto do ângulo do subproletariado, sobretudo do nordestino”. E essa é uma
questão fundamental, principalmente para a esquerda brasileira nessa atual fase
difícil.
Singer, logo no começo se questiona
se o lulismo será competente o suficiente para abrir um caminho que permitirá
colocar as contradições do capitalismo brasileiro em patamar superior.
De
agora em diante falo por mim. Quanto mais lemos o livro mais nos encontramos
diante de um labirinto. A configuração de classe do governo Lula, e
consequentemente Dilma, é contraditória. Existe uma parcela considerável da
classe trabalhadora na base, assim como do grande capital, respectivamente uma
parcela “produtivista” (ameaçada pela desindustrialização do país e que começa
a dar sinais de desconfiança) e outra “rentista”.
Se a esquerda quiser recuperar o
centro (não no mal sentido) da arena política, deve ter em mente o atual
projeto histórico dessa parcela significativa da classe trabalhadora
brasileira. Não penso que o jogo está perdido. Apenas que estamos batendo
cabeça no meio-de-campo, precisamos acertar o toque de bola, mas isso só é
possível com um diagnóstico preciso da atual situação. Criticar apenas a
direção é mais fácil, mas é também incompleto. Penso que o livro de Singer é uma
radiografia do modelo atual, lembrando Nélson Werneck Sodré, muito bem feita.
É
evidente que não tenho capacidade de evidenciar em poucas e breves linhas a
estupenda qualidade do livro, o que pretendo aqui é despertar a curiosidade
para essa agradável e necessária leitura, agradável para os amantes das
Ciências Sociais e necessária para todos aqueles que pretendem a transformação
da sociedade.
quarta-feira, 26 de dezembro de 2012
Althusser e a renovação filosófica do stalinismo - DE ALVARO BIANCHI
Reproduzo o texto do blog: http://blogconvergencia.org/blogconvergencia/?p=488
Louis Althusser está de volta? O autor dispensaria apresentações. Como poucos de sua geração marcou a conformação do campo intelectual francês e fez sentir sua forte influência na Inglaterra, Itália, Estados Unidos e América Latina. Sua obra, fortemente marcada pela polêmica, gerou reações antagônicas, despertou simpatias e antipatias, organizou adeptos e opositores, motivou a apropriação acrítica e a crítica inapropriada. Inserindo sua obra explicitamente na conjuntura política de sua época, Althusser exigiu nos anos 1960 e 1970 uma apaixonada tomada de partido.
Passados mais de 20 anos de sua morte outro Althusser reaparece. Menos apaixonante, é verdade, mas filosoficamente mais complexo. Imediatamente depois de seu desaparecimento teve início na França um importante movimento de resgate da obra de Althusser e de edição póstuma de suas obras, em grande parte inédita e localizada nos arquivos do Institut Mémoires de l’Édition Contemporaine (Imec). Já em 1992 foi publicada uma primeira edição de sua autobiografia, a qual alcançou um estrondoso sucesso editorial (ALTHUSSER, 1994). Seguiu-se a publicação dos escritos sobre a psicanálise de seu diário da prisão, redigido durante seu cativeiro na Segunda Guerra Mundial e de escritos filosóficos e políticos (ALTHUSSER, 1993 e 1994a e 1997), além de novas edições de Pour Marx e Lire Le Capital.[1]
É possível ter agora uma idéia mais abrangente da complexidade da obra althusseriana, de seus diferentes momentos e de suas múltiplas dimensões. O conhecimento agora possível é certamente crítico, como todo conhecimento efetivo, mas trata-se de uma crítica serena e rigorosa cujo único parti pris é o estudo aprofundado de sua obra e de seu contexto. Os novos textos que estão à disposição permitem abordar de modo mais circunstanciado as relações entre filosofia/política, filosofia/filosofia política, esclarecendo a profunda tensão interna existente no pensamento de Althusser a respeito dessas relações.
A relação era tensa, como já foi dito, mas o próprio filósofo da rue d’Ulm se encarregou de evidenciar essa tensão em mais de uma oportunidade. A tensão já estava posta na forte distinção entre prática teoria e prática política que foi feita em Pour Marx. O conceito de prática sobre o qual se base essa distinção era, entretanto, um só. Recorrendo a O capital, e particularmente a sua seção IV, embora não a citasse nesse ponto, Althusser definia prática como “todo processo de transformação de uma determinada matéria-prima dada em um produto determinado, transformação efetuada por um determinado trabalho humano, utilizando meios (‘de produção’) determinados.” (1979, p. 144). Esse conceito abrangente de prática lhe permitia afirmar uma certa unidade entre prática teórica e prática política concebidas como partes integrantes do conjunto do processo de transformação social, ou seja, como partes de uma mesma prática social.
Mas aquilo que era reunido conceitualmente não se encontrava unificado concretamente. O conceito de teoria e de prática teórica que era a seguir apresentado por Althusser dificultava em grande medida essa unificação. Por teoria, o filósofo da rue d’Ulm entendia “uma forma específica da prática” (idem, p. 144) e, particularmente, uma “prática teórica científica” (idem, p. 145). Mas para chegar ao ponto no qual pretendia se viu obrigado a estratificar a prática teórica. Desse modo, ele distingue: 1) a “teoria”, as diferentes práticas que comporiam uma ciência, com seus conceitos, enunciados e leis; e 2) a Teoria, “a teoria geral, isto é, a Teoria da prática em geral, que transforma em ‘conhecimentos’ (verdades científicas), o produto ideológico da práticas ‘empíricas’ (a atividade concreta dos homens) existentes”. A Teoria seria, desse modo, “a dialética materialista que não constitui mais do que um só todo com o materialismo dialético.” (Idem, p. 145.)
Estabelecer a relação entre teoria e prática era, então, em primeiro lugar, estabelecer a relação entre teoria e Teoria, ou seja, entre um sistema teórico dado, como por exemplo, o materialismo histórico, e o sistema metateórico que lhe permitiria chegar ao conceito de sua própria prática:
“É nesse duplo sentido que a teoria importa à prática. A ‘teoria’ importa à sua própria prática, diretamente. Mas a relação de uma ‘teoria’ com sua prática, na medida em que está em causa, interessa também, com a condição de ser refletida e enunciada, à própria Teoria geral (a dialética), onde se exprime teoricamente a essência da prática em geral, e através desta a essência das transformações, do ‘devir’ das coisas em geral.” (idem, p. 146.)
Mas em que sentido a prática importaria à teoria ou à Teoria? Qual é o efeito da luta de classes sobre o “conhecimento verdadeiro”. Sobre esse efeito, da maior importância tanto para a teoria como para a prática, nada é dito. Segundo Althusser, Lenin em Que fazer? ao afirmar que “sem teoria revolucionária não há movimento revolucionário” teria não apenas lembrado à prática política a necessidade da teoria, ou seja, da análise da formação social russa, como também, enunciado a necessidade para a teoria da Teoria.[2] De fato, Lenin nos textos que escreveu em polêmica com o populista Nicolai Mikhailovski, afirmou que “os marxistas tomam da teoria de Marx, sem restrições, apenas os métodos mais valiosos, sem os quais uma elucidação das relações sociais é impossível” (LCW, v. 1, p. 194).
Mas, diferentemente de Althusser não havia em Lenin uma separação radical entre o materialismo histórico (teoria) e o materialismo dialético (Teoria), nem esse imperialismo metodológico da Teoria, na qual o filosofo da rue d’Ulm insiste a todo momento, o qual permitiria a esta assumir a função de garantia da “verdade” distinguindo-a precisamente do erro, desde que corretamente aplicada pelo filosofo. Mas por que insistir nessa separação? Ela seria necessária para retirar a Teoria da história: “a filosofia não tem história (no sentido em que a ciência tem uma história)”, afirmava Althusser (1978, p. 44) em sua resposta a John Lewis. A Teoria seria, portanto, opaca ao materialismo histórico.
Althusser sabia, entretanto, que a filosofia não era estranha a luta de classes e nessa mesma resposta insistiu que “a filosofia é, em última instância, luta de classes na teoria” (idem, p. 44). Um crítico mais apressado poderia apontar uma contradição entre as teses que “a luta de classes é o motor da história” e a filosofia é luta de classes e a tese de que a filosofia não tem história. Mas essa contradição não existiria para Althusser. A filosofia não teria história porque lhe seria externa.
A separação entre materialismo histórico e materialismo dialético bloqueavam a possibilidade do materialismo histórico assumir como objeto o materialismo dialético. Nesse ponto, o sofisticado Althusser não estava distante do pragmático Stalin que destacava a distinção entre materialismo histórico e materialismo dialético e na impermeabilidade destes ao próprio materialismo histórico, em um livro de uma espantosa indigência teórica (STALIN, 1982).
Essa proximidade com o diamat staliniano só pode surpreender os mais ingênuos ou desinformados. Althusser aderiu ao Partido Comunista Francês depois da invasão soviética à Hungria, ou seja, quando intelectuais mais lúcidos começavam a abandoná-lo. No partido comportou-se como um hardliner e se em alguns momentos contrapôs-se à ortodoxia o fez sempre em nome da ortodoxia.[3] As recorrentes menções à “ciência marxista-leninista” ou à “filosofia marxista-leninista” não são cláusulas de segurança para acalmar a burocracia stalinista. Desta, Althusser se apropriou não apenas do jargão mas também de aspectos teóricos centrais e, principalmente, de sua herança política. Assim, enquanto alguns por puro cinismo deixaram de citar o “guia genial dos povos” após o relatório secreto de Nikita Khrushchev e as denúncias dos crimes, Althusser continuou a fazer gala à obra “teórica” de Stalin, considerando-a “em muitos aspectos notáveis”, em Pour Marx (idem, p. 83).
Notável, dentre outras coisas, por ter abolido a “negação da negação” das “leis da dialética”, reivindicou o autor de Pour Marx. Afinal, se “está-se hoje oficialmente convencido” de que se deve censurar o autor de Materialismo histórico e materialismo dialético por tê-la abolido, melhor seria reconhecer que “a expulsão da ‘negação da negação’ do domínio da dialética marxista pode atestar um real discernimento teórico no seu autor.” (idem, p. 175-176.) E ainda em 1967, em seu escrito inédito sobre a querela do humanismo, Althusser reafirmaria seu juízo em termos ainda mais assombrosos: “Eis por que Stalin pode ser tido por um filósofo marxista extraordinariamente perspicaz, ao menos neste ponto, por ter eliminado a negação da negação das ‘leis’ da dialética.” (1997, v. 2, p. 470. Grifos meus.) “É verdade”, afirma Daniel Benasïd, comentando essa passagem: Stalin preferirá muitas vezes “a negação tout court, sem retorno e sem adjetivos” (BENSAÏD, 2001, p. 108). O termidor como a negação tout court da revolução russa. Extraordinária a perspicácia filosófica desse georgiano que antes de expulsar e abolir a negação da negação, expulsou e aboliu a vida de toda oposição.
Abolição! Expulsão! Que palavras terríveis! Será possível que Althusser não percebesse o significado delas e sua inadequação ao debate filosófico? É certo, o filósofo não tinha muita familiaridade com a prática política. Rancière se aproveitou disso em seu ressentido e mordaz acerto de contas com o antigo mestre (RANCIÈRE, 1974). Mas o filosofo da rue d’Ulm não era, evidentemente, ingenuo, como revela o modo como constrói seu argumento em Pour Marx. “Está-se, hoje, oficialmente convencido…”. Estranho esse sujeito indeterminado. O próprio Althusser havia se assombrado perante o apoio aos intelectuais humanistas que o secretário geral do PCF Waldeck Rochet lhe havia confessado sem citar nenhum nome: “mas quem são eles?”, perguntou-se Althusser em sua biografia (1994, p. 223). E quem está convencido agora? E mais estranho é esse convencimento “oficial”. Sim, era contra a interpretação dominante no Partido Comunista Francês, que Althusser se voltava e, principalmente, contra alguns dos filósofos oficias: Guy Besse e Roger Garaudy, em primeiro lugar. Melhor seria dizer: “a direção de nosso partido está convencida”. Mas isso não poderia ser dito por um filósofo se ele quisesse permanecer no partido.
Para Althusser, “não existia, agora, objetivamente, nenhuma outra forma de intervenção política possível no partido senão aquela puramente teórica, e mais uma vez, com base na teoria existente ou reconhecida para utilizá-la contra o uso que se fazia no Partido.” (1994, p. 221) O que ele poderia fazer, então, e fez, foi atirar na cara da nova ortodoxia a velha ortodoxia, aquela que o PCF não poderia rejeitar sem negar-se a si próprio. Apoiou-se, assim, em uma “teoria existente”. O argumento, como pode se ver, estava longe de ser ingênuo, mas justamente por isso submetia-se voluntariamente à fria lógica do aparelho: era no campo teórico do stalinismo que Althusser propunha travar essa luta teórica, naquilo que Althusser chamava, candidamente, “nossa história”. Mas que história é essa? O filósofo responde:
“Stalin não pode (…) ser reduzido ao desvio que ligamos a seu nome; nem tampouco o pode por razões ainda mais fortes a III Internacional, que Stalin terminou por dominar após os anos [19]30. Ele teve outros méritos diante da história. Compreendeu que era preciso renunciar ao milagre iminente da ‘revolução mundial’ e, desse modo, empreender a ‘construção do socialismo’ em um só país; e tirou as consequências dessa decisão: defendê-lo a qualquer preço como a base e a retaguarda de todo o socialismo no fundo, fazer dele sob o assédio do imperialismo – uma fortaleza inexpugnável e, com essa finalidade, dotá-lo prioritariamente de uma indústria pesada, da qual saíram os tanques de Stalingrado, que serviram ao heroísmo do povo soviético na luta de vida ou morte para libertar o mundo do nazismo. Nossa história passa também por isso. E, através inclusive das deformações, das caricaturas e das tragédias dessa história, milhões de comunistas aprenderam, ainda que Stalin lhes ‘ensinasse’, como dogmas, que existiam princípios do leninismo.” (idem, p. 63).
A história como expressão da realpolitik staliniana. O que deveria ser explicado era, para Althusser, o que deveria ser justificado. O complexo processo de renovação filosófica liderado pelo filosofo francês atualizava o stalinismo e procurava dar-lhe uma justificativa filosófica mais sólida. Por essa razão Althusser sempre procurou evitar a crítica ao fenômeno burocrático, limitando-se, na maioria das vezes a observações do senso comum nas quais não deixava de coincidir retrospectivamente com aquele humanismo soviético que havia criticado.
Convenha-se, se o rude interesse da burocracia soviética era o horizonte do pensamento, para que uma filosofia tão sofisticada? Se era possível chegar a essa história por meio “das deformações, das caricaturas e das tragédias”, qual a finalidade da teoria? No auge da força e influência do Partido Comunista Francês talvez fosse possível evitar essas perguntas, embora um pensamento crítico não o tenha feito. Mas, mais de vinte anos depois do colapso soviético e do irreversível declínio do comunismo burocrático, que sentido há em continuar a evitá-las? A miséria do althusserianismo original continua a ser a do neoalthusserianismo.
Referência bibliográficas
ALTHUSSER, Louis et al. Lire le Capital. Paris: F. Maspero, 1967, 2v..
ALTHUSSER, Louis. Montesquieu: la politique et l’histoire. Paris: Presses Universitaires de France, 1969.
ALTHUSSER, Louis. Montesquieu, a política e a história. Lisboa: Presença, 1977.
ALTHUSSER, Louis. Posições 1. Rio de Janeiro: Graal, 1978.
ALTHUSSER, Louis. Écrits sur la psychanalyse: Freud et Lacan. Paris: Stock/Imec, 1993.
ALTHUSSER, Louis. L’avenir dure long temps, suivi de Les faits: nouvelle édition augmentée. Paris: Stock/Imec, 1994.
ALTHUSSER, Louis. Journal de captivité. Stalag XA, 1940-1945: carnets correspondences, textes. Paris : Stock/Imec, 1994a.
ALTHUSSER, Louis. Écrits philosophiques et politiques: textes réunis et présentés par François Matheron. Paris: Stock/Imec, 1997, v. 2.
ALTHUSSER, Louis. Solitude de Machiavel: edition préparée et comentée par Yves Sintomer. Paris: PUF, 1998 (Col. Actuel Marx Confrontation).
ALTHUSSER, Louis. Sobre a reprodução. Petrópolis: Vozes, 1999.
ALTHUSSER, Louis. Política e história: de Maquiavel a Marx. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
BENSAÏD, Daniel. Résistances: essai de topologie générale. Paris: Textuel 1, 2001.
LENIN, Vladimir Ilitch. Collected works. Moscow: Progress, 1963-. 44v. (LCW)
RANCIÈRE, Jacques. La leçon d’Althusser. Paris: Gallimard, 1974.
STALIN, Joseph. Materialismo dialético e materialismo histórico. 3. ed. São Paulo: Global, 1982.
THOMPSON, E. P.. The poverty of theory & other essays. New York: Monthly Review, 1978.
Notas:
[1] Esse revival parece, aos poucos, chegar ao Brasil. Quase simultaneamente à França foi aqui publicada sua biografia. Alguns anos depois, foi lançada uma deplorável tradução de Sur la reprodution (ALTHUSSER, 1999). Agora, vem à luz uma coletânea de textos sobre política e história, reunindo seus cursos sobre filosofia da história e filosofia política, ministrados entre 1955 e 1972 na École Normale Supérieure (ALTHUSSER, 2007). O publico brasileiro é, entretanto, claramente prejudicado pela ausência de um projeto editorial consistente. Para quem não conheça, por exemplo, textos mais coerentes a respeito do pensamento político escritos por Althusser (p. ex. 1997 e 1998) torna-se difícil, compreender em profundidade um conjunto de notas de aula, nem sempre coerentes.
[2] Althusser cita Lenin (entre aspas) do seguinte modo: “sem teoria, não existe ação revolucionária”. A citação é equívoca por duas razões: 1) Lenin escreveu de “teoria revolucionária” destacando de antemão o nexo existente entre teoria e política, nexo obnubilado pela suposta citação em Pour Marx; 2) Lenin escreve “movimento revolucionário” e não simplesmente “ação revolucionária” destacando o caráter orgânico deste, razão pela qual a seguir faz referência explícita á social-democracia russa. Atribuir a autores aquilo que nunca disseram era prática corrente em Althusser. A esse respeito, ver a observação de Edward Thompson de que Marx nunca teria escrito que a “luta de classes é o motor da história”, frase insistentemente citada entre aspas por Althusser que lhe atribui até mesmo uma imaginária referência bibliográfica: o Manifesto comunista.
[3] Dentre as passagens mais patéticas de sua penosa autobiografia está, sem dúvida, aquela na qual descreve sua participação na reunião que votou pela expulsão de sua companheira Hèlene: “Quando veio o momento do voto todas as mãos se levantaram (…) e eu vi para minha vergonha e estupefacto minha própria mão se levantar: eu sabia há muito tempo, eu era um covarde.” (ALTHUSSER, 1994, p. 228)
Feliz navidad...
A despeito de todo consumismo característico das festas de fim de ano, sempre é tempo de celebrar a solidariedade entre os homens. Não me interessa se o Natal foi apropriado pelo capital, como todas expressões religiosas (e as próprias religiões), tampouco me interessa saber se Cristo realmente existiu como enviado de Deus, cada qual tem seus motivos para acreditar ou desacreditar.
Por enquanto, me interessa apenas lembrar que Cristo era carpinteiro como o pai, de origem proletária, Maria uma moça igualmente pobre. Cristo contestou a ordem social vigente, e, à sua maneira, criticou a desigualdade social e o regime opressor da época, ansiando sempre a fraternidade e igualdade entre os homens. Não há contradição nenhuma entre os anseios de um comunista como eu e os de Cristo, nesse sentido. Se em nome de Cristo mataram, torturaram e trucidaram, em nome do comunismo muitas tragédias ocorreram pelo mesmo tipo de usurpação e distorção, bem como em nome da "liberdade" (e desta última mais ainda).
Desejo a todos um Feliz natal, em que possamos refletir qual o mundo que queremos para 2013.
Por enquanto, me interessa apenas lembrar que Cristo era carpinteiro como o pai, de origem proletária, Maria uma moça igualmente pobre. Cristo contestou a ordem social vigente, e, à sua maneira, criticou a desigualdade social e o regime opressor da época, ansiando sempre a fraternidade e igualdade entre os homens. Não há contradição nenhuma entre os anseios de um comunista como eu e os de Cristo, nesse sentido. Se em nome de Cristo mataram, torturaram e trucidaram, em nome do comunismo muitas tragédias ocorreram pelo mesmo tipo de usurpação e distorção, bem como em nome da "liberdade" (e desta última mais ainda).
Desejo a todos um Feliz natal, em que possamos refletir qual o mundo que queremos para 2013.
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